James e o Gallardo Spider


http://www.topgear.com/uk/james-may/james-may-gallardo-spider-2009-01-26


Vou ser direto: sempre gostei dos Lamborghinis, especialmente o Gallardo. É um carro fabuloso. Contudo, ele tem um quê de dobradura de papel, uma impressão de que é uma inspiração artística em vez de um produto derivado de um longo processo de desenvolvimento.

Também há algo satisfatoriamente “do contra” sobre a Lamboghini: o legado de um fabricante de tratores que virou um selvagem. Nada me agrada mais que ver um verde-claro desses como um tipo de resposta à eterna pose da Ferrari por sua história nas pistas e por alguma ultrapassagem que ocorreu em 1957 em Eau Rouge. O Lamborghini é o supercarro para pessoas que acham que supercarros devem ser primeiro uma diversão e depois máquinas de pilotar. Eu aprovo isso.

Mas haviam problemas com meu Gallardo Spider. Sempre que me aproximo de um supercarro a primeira coisa que me pergunto é “isso vai me fazer parecer um idiota?” Acho que o Lambo provalvemente faria. Era preto fosco, uma cor estúpida para um carro e uma vaga referência aos sonhos de adolescentes em voar em caças. O couro do interior era laranja, gritante, e era pregueado de uma forma que me lembrou aqueles protetores de incontinência para colchões.

Eu precisava dirigir esse negócio de algum lugar perto de Castle Hammond à minha hospedaria no leste de Londres sem ter a impressão de que era o centro das atenções. Muito improvável.

Essa é a raiz do meu problema com os Lamborghinis. Eu gosto deles, mas quero que outras pessoas tenham eles. Me interesso por eles da mesma forma que me interesso pelo Tesouro Nacional. Quero saber o que está acontecendo lá mas não quero ter nada a ver com aquilo. Rod Stewart pode ter um Lamborghini porque ele pode usar calças de leopardo e fazer luzes no cabelo. Mesmo Jeremy Clarkson pode ter um porque ele é o embaixador internacional do exagero. Mas eu não posso. Sou meio nerd, o que me torna um cara mais “Porsche”.

Se eu fosse um legítimo piloto de testes, poderia desmerecer o Gallardo Spider por todos os tipos de razões mundanas. As pequenas queixas incluem o tamanho do porta-malas, que todos os jornalistas descreveriam como “suficientemente grande para um par de bolsas no fim de semana.” Mas eu o descreveria como pequeno demais porque eu passei algum tempo com mulheres. Reconheço que, tradicionalmente, a praticidade dá uma trégua para o prazer de dirigir. Mas porque tem que ser assim? Meu Boxster tem dois porta-malas...

A maior crítica poderia ser a seguinte: sabemos que Lamborghinis são meio alemães agora, mas espiritualmente, eles ainda são supercarros italianos. Por isso os plásticos do interior são meio vagabundos. Porque a nação que nos deu o Renascimento e dominou a técnica de artesanato em madeira, em mármore, em bronze, couro e vidro nunca aprendeu direito como fazer moldes de plástico injetado. Além disso a capota, quando fechada, faz um barulho insuportável e não combina com as £135 mil que saíram da sua carteira.

Eu até tenho mais reclamações. Com as borboletas no volante é quase impossível manobrar com alguma dignidade e certamente não dá pra fazer isso sem fazer tanto barulho quanto um carro de corrida. Isso tudo em 20m e a 0,5km/h causa o que eu mais tentei evitar: uma multidão de curiosos. O pedal de freio é mole demais e a condução em baixa velocidade é catastrófica.

Pra ser honesto, o Gallardo é um daqueles carros que chegam junto se você começar a andar mais rápido e ele tem a vantagem de ser excitante sem que você precise ficar completamente maluco. Mesmo o câmbio funciona direito desde que você evite as áreas residenciais, o que eu tentei fazer o tempo todo para não ser visto dentro dele. O fato é que ele é um desses carros que gostam de estradas perfeitas.

Esse é o problema. O Gallardo nunca conseguirá ser tão bom quanto parece. E contemplar algo tão belo para depois descobrir que ele é somente um carro é decepcionante. O Gallardo é um objeto maravilhoso mas um carro ridículo. Francamente, os Lambos sempre foram assim e é por isso que eles deveriam ser vendidos somente em pôsteres.

Eu deveria saber disso. O Countach, que eu dirigi após 30 anos sonhando com ele, se revelou um carro imprestável.

A Lamborghini pra mim é uma lição clara de que você nunca deve conhecer seus ídolos.

4 comentários:

Vinicius disse...

rsrsrs achei perfeito o texto e coincidentemente me identifiquei muito com minha situação atual: após anos sonhando em ter um Fusca turbo realizei meu desejo e... Me arrependo muito por não ter focado só no sonho. O carro só dá problema e bebe mas que um V8 com quadrijet desregulado.

Franco disse...

Rapaz, parabéns pelo seu blog e esse trabalho hercúleo em Traduzir os brilhantes artigos e reportagens do Clarkson. Algum jornal deveria contratá-lo para divulgar essas reportagens pois é o que presta nesses artigos bajuladores e chapa-branca nessa imprensa automotiva.

Bruno de Figueredo disse...

Parabéns pelo trabalho, só assim pra gente ter acesso ao melhor da imprensa automotiva mundial.

live_to_ride disse...

excelente trabalho, continue assim, espero ansioso por novos posts.