Clarkson sobre o futuro


Original em http://www.topgear.com/uk/jeremy-clarkson/clarkson-future-02-2009

Sutileza é para livros. Você pode voltar e reler uma passagem para saborear todas as metáforas e insinuações. Mas ela não serve para um programa bombástico como o Top Gear, e é por isso que ninguém percebeu a importância de terminarmos a temporada de 2008 com James May testando o Honda Clarity movido a hidrogênio.
Você deve ter achado um pouco sério demais - deveria ter visto a explicação técnica de 45 minutos que James planejou – e deve ter imaginado por que deveríamos terminar um programa que apresentou saltos com trailers, a história dos acidentes nos campeonatos de Turismo, com aquele olhar seco e direto sobre o Clarity.

Simples. Estávamos tentando ser sutis. Estávamos tentando mostrar que esse é o carro mais importante desde que o carro foi inventado. Que, com um tiro só, a Honda matou dois grandes problemas da sociedade moderna, os politicamente-corretos e os incorretos. Remete à questão sobre o que faremos quando o petróleo acabar e cala todos que nos fizeram acreditar que os carros estão derretendo as calotas polares. Resumindo (e tirando a sutileza), o Clarity significa que podemos dormir tranquilos.

Como ele libera somente água, não há motivos para não conectá-lo à sua casa e usar seu motor para mover todos os aparelhos eletrônicos. Todos mesmo. Mesmo se você vive em um palácio. Ele realmente é a solução para tudo.
Infelizmente, é bem difícil obter hidrogênio. Atualmente não há infraestrutura para transportá-lo ou vendê-lo. E o Clarity, honestamente, é só o Gênesis. Precisamos passar pelo Êxodo, Deuteronômio, Números e todo o Antigo Testamento antes que você possa comprar e rodar com o Clarity com praticidade e preço razoável.

Normalemente todos esses problemas podem ser solucionados com dinheiro. Mas isso é uma coisa que a indústria de carros não tem agora. Também não terá em um futuro próximo. Outras indústrias? É difícil pensar em uma. As petrolíferas estão confusas com o barril do seu ouro líquido vendido a somente $50. E se alguém pensar em invenstir nisso, descobrirá que os bancos não estão emprestando dinheiro. Em resumo, e sem sutileza alguma dessa vez, dinheiro é uma coisa que o mundo não tem.

Também parece que as fábricas de carro vão optar pelo modo mais barato e mais fácil de fazer híbridos estúpidos, como o Prius, que todos os críticos podem dizer que não passa de um jeito complicado de fazer as pessoas sentirem que estão fazendo algum esforço para salvar o planeta. Como leitores de um site automotivo, sabemos que eles não estão fazendo isso. Híbridos consomem muita energia em sua produção e são ecologicamente devastadores quando tirados de circulação. E fazem, no máximo, 16km/l.

Fazer um híbrido para evitar o desastre é como substituir uma vidraça quebrado por uma lâmina de polietileno. Ele deixa o ambiente aconchegante e aquecido novamente, mas ele ainda poderá ser assaltado. Precisa de um substituto para o espaço vazio? Precisa de hidrogênio? É caro e você não tem dinheiro. Também não vai ter até que as pessoas voltem a comprar seus produtos. Eles não compram porque não têm dinheiro também. E se tivessem, não gastariam, porque o Daily Mail vai dizer que eles são presunçosos, extravagantes e vão causar câncer de mama.

Eu temo que (pelo andar da carruagem) não haverá nenhum grande avanço. Não haverá revolução. Os híbridos continuarão a ser comprados por tolos desinformados, o Clarity vai continuará driblando na Califórnia e o carro como conhecemos seguirá sem mudanças.

Entretanto, acho que eles se tornarão mais entediantes. Nos últimos anos recebemos quase toda semana, uma ligação de um cara dizendo que fez um carro V48 de £8 milhões e que o Stig gostaria de dar uma volta na nossa pista.

Vimos a Aston Martin etiquetando seus carros com a técnica “pense em um número, agora duplique”. Tivemos a Lamborghini e a Porsche trabalhando em supercarros fantasticamente caros de quatro portas. A Mercedes fazendo um SL que custa £250 mil e a BMW imaginando que o mundo precisa mesmo é da magnificência estúpida do X6. O mundo todo colou o nariz nos vidros e as empresas ficaram muito felizes em nos alimentar com caviar. Foi divertido, honestamente, mas agora acabou.

Isso não precisa ser necessariamente uma coisa ruim. Estive andando por Londres num outro dia e, estranhamente, todas as concessionárias da Park Lane pareciam fora de moda, meio gordas, meio “última-semana”. Enquanto isso a loja vermelha e branca da Fiat na praça Berkeley parecia perfeitamente normal. Eu queria quase tudo dela. E quando chegaram com o 500 Abarth (que ouvi dizer que terá 200hp em um futuro próximo) eu fiquei muito inclinado a entrar e comprar alguma coisa.
Esse será o segredo dos fabricantes. Eles terão que pegar seus Panda “café-com-leite” e torná-los muito mais atraentes com uma pincelada aqui e um traço ali.

Vou contar um pequeno segredo: no mundo real, bem longe do enorme espaço da pista de testes do Top Gear, dirigir o Fiat 500 é muito mais divertido que o Zonda. O Zonda correria mais, só que em uma rodovia secundária ondulada você sorriria muito mais em um Fiat. Juro. Ou em um MINI. Ou em um pequeno Ford.

No futuro não distante, carros como estes se tornarão regra para os entusiastas assim como nos anos 80, as pessoas venderam seus Gordon-Keebles e Bentleys para comprar um Golf GTi. Em vez de ficar sonhando com o dia em que você comprará um Gallardo ou Scuderia, você deveria diminuir suas aspirações para algo como o novo BMW Z4.
Isso me parece tão claro hoje como o X6 é errado. Doze meses atrás (que parecem mais distantes que o século XIX) o Z4 era ruim. Culparam o desenho exótico pelas fracas vendas, o que deve ser verdade, mas eu percebo que o motivo principal é que ele não vendeu por que era muito barato. Os compradores entravam na loja para comprar um quatro e saiam com um seis. E por que não fazer isso?

O novo modelo é equilibrado como o antigo, mas menos exótico. É muito bonito. Também tem o teto de metal e, claro, é um BMW, o que não é um problema hoje porque os exibidos estão comprando o Audi TT.
Estranho, não? As mudanças do Z4 são bem-vindas mas meio superficiais. Você pode até considerá-las sutis. Realmente, permaneceu o mesmo e o mundo mudou. Nós costumávamos sonhar em sair com uma modelo famosa, mas agora, parece que crescemos e percebemos que é melhor sonhar em sair com a vizinha bonita.

Dois anos atrás, disse que o Z4 era um pouco enfadonho. Agora... estou querendo um.

4 comentários:

geraldo gatto disse...

Faz tempo que eu lamento esta tendência ao desperdício no mundo automobilístico. Talvez por ter aprendido a ler no começo dos anos 80, tenho uma certa birra com carros redondinhos que não privilegiam aerodinâmica nem espaço interno e carros com cada vez mais itens de conforto (alguns dispensáveis) em detrimento de itens de segurança. Carros com cada vez mais metros de fios elétricos e com muitos quilos a mais.

Anônimo disse...

É triste, mas J.C. , mais uma vez, tem toda a razão. Os supercarros superlativos em preço e performance estão seriamente ameaçados no contexto do mundo atual. Na verdade, parece-me que o quesito "arte" definido pelo Clarkson quando no review sobre o Alfa 8C está cada vez mais aplicável a outros supercarros. Nada práticos de serem utilizados, absurdamente caros, cada vez mais lindos, extremamente exclusivos. Espero que as montadoras consigam colocar em outros carros mais desse "fator X" que o Fiat 500 ou o Mini, por exemplo, possuem.
Espero que não sejamos privados de ouvir (no futuro) o som de um V8 ou V12 de combustão interna trabalhando. Noto que o Clarkson deu uma conotação mais racional ao artigo... parece que o mundo exige neste momento uma atitude menos passional, ou pelo menos, passional sob medida´. Quer um esportivo, compre um que o seja mas que também seja utilizável no mundo real. O planeta e, principalmente o bolso das pessoas (leia-se "pessoas realmente ricas") não têm mais espaço/envergadura para extravagâncias automobilísticas que não garantam uma experiência que seja realmente assombrosa. Principalmente nesse jogo de vaidades e egos que querem se sentir cada vez mais ativistas em busca de um mundo melhor se enganando ao comprar um carro híbrido, ou mesmo uma bicicleta, como disse James May em outro artigo... "tampando sol com peneira" é o que estão fazendo..."sorvete diet com cobertura de chocolate, marshmallow, cereja e granulado". O que realmente está matando a indústria automobilística é que o mundo ainda não está preparado psicologicamente para se desvencilhar do petróleo. Os grandes detentores de poder não têm, e, provavelmente, nunca terão interesse em promover uma mobilização em massa para converter o sistema econômico baseado no "Ouro Preto" em um sistema baseado na Energia Limpa. Eles não têm porquê!!! É mais cômodo deixar como está. Essa é uma história que apenas repete a História. Quaaaaando o petróleo acabar, aí sim o mundo terá um real motivo para migrar para um sistema de energia limpa, renovável e, principalmentem economicamente viável para os grandes detentores de poder.


Ass.: Alexandre Daher (alexandredaher@hotmail.com)

Vinicius disse...

Realmente, principalmente em nosso país, onde carros esportivos (de verdade) são somente para ricos e milionários, temos de nos contentar em possuir "the pocket rocket", o que não deixa de ser interessante, principalmente se analisarmos as condições das nossas ruas.

Anônimo disse...

realmente os crros esportivos são só para milionários,levando em conta que nossas ruas não são adequadas para esse tipo de veiculos,temos que nos contentar com os carros redondinhos e cheios de fios ok .