Fiat Qubo


"Tentar ultrapassar o limite de velocidade nesse carro seria como tentar ultrapassar o limite de velocidade em uma vaca."

Agora que nenhuma marca de absorventes íntimos pode exibir seus produtos nos intervalos comerciais, o governo e vários outros órgãos se empenharam em preencher o vazio com uma nova gama de filmes de utilidade pública.

Como eles chegam aos temas abordados eu não faço ideia, mas nos últimos meses nos ensinaram a não espirrar em elevadores, a tomar mais cuidado com motociclistas e, estranhamente, como descobrir que uma pessoa está tendo um acidente vascular cerebral (AVC). Por que um AVC? Por que não falar da gripe aviária, ataque cardíaco ou sífilis? E por que eu não posso espirrar em um elevador? Se é lá que eu estou quando der vontade, o que devo fazer? Manter a boca fechada e apertar meu nariz? Isso explodiria meus olhos!

Ah, e se os motociclistas querem que as pessoas vejam eles nos cruzamentos, aqui vai uma sugestão: comprem um carro.

Evidentemente não há nada de novo nessa intimidação. Na minha juventude, lembro de ouvir Harold Wilson dizendo para não colocar tapetes sobre um piso encerado e Rolf Harris recomendando que eu aprendesse a nadar. Mas a quantidade de ordens hoje é incrível.

Estão constantemente nos dizendo para não fumar, não comer muito sal, não beber e dirigir, não esquecer a declaração de imposto de renda, não brincar com fogos de artificío, não andar em terceira e não passar o dia vendo TV.

E então nessa manhã, enquanto lia o manual do Fiat Qubo, descobri que por trás das câmeras as coisas são bem piores.

É como qualquer outro manual de carro. Escrito para tribos na Amazônia e marcianos, há um aviso sobre como ligar o motor e o que o velocímetro faz, mas enterrado no manual no meio de uma passagem fascinante sobre como utilizar os bancos, achei um quadro que diz que o carro é equipado com o sistema "Diagnóstico de Bordo Europeu".

Parece inofensivo: uma luzinha acende para avisar quando um componente relacionado às emissões está avariado. Mas aí ele diz, casualmente, que os registros do funcionamento do motor são gravados e podem "ser acessados pela guarda de trânsito".

Posso estar me preocupando a toa, mas isso significa que o guardinha agora pode engatar um laptop no sistema de gerencialmento do motor e ver a qual velocidade você dirigia?

Se ele puder, a boa notícia é que se você comprar um Fiat Qubo, a polícia pode procurar quanto quiser, porque tudo o que vai descobrir é que, desde que você comprou o carro, você nunca ultrapassou o limite de velocidade. Até porque isso seria como tentar violar o limite de velocidade em uma vaca.

O Qubo é uma van. Ah, eles tentaram dar uma animada no carro colocando uma fantasia verde e janelas triangulares e certamente tinham uma sala cheia de caras com camisas de gola rolê imaginando um nome para o carro. Mas ainda é uma van.

Não tenho nada contra isso. O Citroën Berlingo é uma van e se sai muito bem como carro familiar.

O Qubo, não. Ele foi projetado em parceria com a Citröen, é feito sobre a plataforma do Punto e é movido por um motor de 1,3 litros da Opel, se você escolher a opção a diesel.

Nem precisava dizer que há todos os tipos de erros tolos. Por exemplo, a tampa do porta-malas é aberta por um botão na chave. Ótimo. Exceto pelo fato de que você vai apertar esse botão por engano toda vez que girar a chave para ligar o carro. Garanto. E então vai ter que sair do carro e fechá-la de novo.

Claro que poder abrir o porta-malas por um botão é bem útil se você está vindo das compras cheios de bolsas e sacolas. Mas você não vai conseguir abrir a tampa do porta-malas porque a traseira é tão grande que mesmo que tivessem estacionado a um quilômetro de distância, ainda não seria possível abri-lo. São esses os detalhes que transformaram uma boa ideia em algo que simplesmente não funciona.

Quando se trata de engenharia, nada pode ser "brilhante, apesar do...". Seja uma usina nuclear, uma mureta de proteção ou um carro. O que quero dizer é: o Titanic era brilhante, apesar do seu leme mal-feito.

Claro que você pode olhar o preço baixo do Fiat Qubo - é quase o mesmo de um McLanche Feliz - e o baixo custo de manutenção e dizer que não se importa com a traseira, ou com a alavanca de câmbio robusta como uma das orelhas do Pernalonga, ou com o fato dele não ter tapete nenhum - deixe-me repetir: "não tem tapete algum" - porque ele oferece muito mais espaço que um hatchback comum.

Bem, vamos olhar esse espaço. O interior do Qubo de cinco lugares não é muito mais largo que um carro normal e, certamente, não é muito mais comprido. É simplesmente mais alto, o que é bem útil em uma van, mas a menos que você tenha 2,50m de altura ou um cabelo black power imenso, esse teto alto não faz diferença alguma em um carro.

A Citroën resolveu isso no último Berlingo que dirigi enchendo esse espaço com uma série de porta-objetos. O Fiat Qubo que testei tinha ali somente um monte de ar inútil.

Também não é tão versátil. Sim, os bancos traseiros são rebatíveis e podem ser levantados todos juntos. Mas a menos que você goste de machucar seus dedos, você não vai colocá-los no lugar de novo.

Aí tem a velocidade. Testei o modelo 1,3 a diesel, que leva mais de 16s para ir de zero a 100. Você pode não se importar com isso porque você é um fracassado. Mas devo ser claro: estou falando de um desempenho que só pode ser medido em termos geológicos.

Juro por Deus que o Qubo é tão lento que se você entrou em um nessa manhã para dirigir em direção ao sul o mais rápido possível, a erosão costeira vai engolir você na quarta à tarde.

O monte Evereste está atualmente movendo-se ao noroeste cerca de 5cm por ano. É essa a velocidade que você anda no Qubo. E esteja certo de uma coisa: na estrada esse ritmo não é somente anti-social. É perigoso.

Não vejo problema se você quiser reciclar tofu e tricotar uma calcinha de cânhamo, porque nada disso afeta ninguém. Mas dirigir um Qubo afeta todo mundo. Ele bloqueia o sistema. Deveriam ter chamado ele de Imodium.

Ontem na A44, imaginei uma cauda enorme. Ia dizer que me sentia como a cabeça de um cometa, veloz e furioso mas a imagem estava errada. Na verdade me sentia como um espermatozóide.

Uma pobre mulher em um Citroën C2 ficou tão cheia do meu ritmo tectônico que tentou me passar de uma forma suicida. Se eu não tivesse freado para deixá-la voltar ao lado certo da rodovia, ela teria batido de frente com o outro carro.

Você pode dizer que o acidente seria por culpa dela. Mas e se sua mãe tivesse ligado pra dizer que colocou muito sal na comida e estava tendo um acidente vascular cerebral? E se ela estivesse prestes a espirrar e precisasse chegar em casa o mais rápido possível?

A batida não teria sido por culpa dela. Teria sido por minha culpa por colocar as necessidades dos ursos polares à frente das necessidades de todo mundo.

6 comentários:

Vinicius disse...

Nossa, esculacharam legal o carro. Mas só pela configuração, dá para imaginar o trombolho que é!

Bruno de Figueredo disse...

Excelente texto. O pessoal do Top Gear é fantástico, extremamente realistas e críticos e com uma forma maravilhosa de escrever, ao mesmo tempo engraçada, divertida e esclarecedora. Possibilidade de vermos algo assim em nossas revistas automotivas: Zero.

Thiago Daher disse...

Isso que é paixão por carro, rapaz. Tudo bem que tem o fato de os caras trabalharem pela BBC que tá pouco se fodendo. Se um repórter brasileiro falar mal de um carro num canal nosso: primeiro nao vai ao ar, segundo, ele perde o emprego. O Color pode ter todos os defeitos do mundo, mas ele estava certo, em 94, quando dizia que os carros nacionais eram/são uns lixos.

Thiago

Erlon disse...

Perfeito! A mais perfeita definição que se encaixa perfeitamente a vários carros feitos aqui no Brasil!

Anônimo disse...

boas.., eu possu-o uma fiat fiorino qubo 1.3 multiject de junho de 2009. Tenho várias coisas apontar que estao erradas aqui. A carrinha fiat qubo atinge uma velocidade maxima de 165 km/h e nao 145 como disem. A divisioria é em chapa e nao madeira como esta escrito no blog. Gostava de saber se a pessoa que fez o blog já andaou dentro de uma fiat qubo ou em cima de uma vaca ?

Anônimo disse...

Bom...eu acho que nunca vi tantas barbaridades escritas juntas...e acreditem que já vi muitas....mesmo muitas! Agora sobre o pessoal do Top Gear...tudo bem são divertidos, dizem umas piadas e estão habituados a experimentar Ferrari´s e Lamborgini´s e outros automoveis do genero, claro que ao andarem em carro destes vão dizer o que?? que o "Stig" fez a volta mais rapida nesta maquina...que um caracol claro...enfim tem lá a realidade deles que não é nada comparavel com as dos comuns mortais, que usam um carro para se deslocarem...alguns quando compram um carro tentam comprar várias coisas numa só...espaço, conforto, economia e uma relação preço/qualidade/fiabilidade boa, tudo coisas que este pequeno modelo da Fiat porpociona! Ao contrario do referido penso que a base deste carro é o Panda e não o Punto.