
Estava tarde, escuro, frio e chovendo. Mesmo assim eu estava ensopado, simplesmente não podia entrar no carro da foto aí de cima. Minha esposa gritava comigo porque a chuva estava estragando seu cabelo, seu o vestido estava ficando transparente e eu deveria parar de ser estúpido e abrir logo as portas do carro. Mas eu não podia porque seria muito embaraçoso.
Se eu tivesse ido ao encontro anual da Ray Winstone Appreciation Society estaria tudo bem. Estaria orgulhoso do gigantismo desse carro, de suas listras pretas no capô, seus para-lamas saltados e seu logotipo próprio. Mas eu estava no New Theatre em Oxford, e o público do teatro de Oxford, com seus cabelos malucos, seus capacetes de ciclismo e suas jaquetas peludas, definitivamente não simpatiza com carros como este. Nem com pessoas que dirigem um deste. Especialmente com a placa DE53JOS.
Francamente, OB08O seria menos ridículo. Então eu fiquei lá fingindo que o carro não era meu até que todos caíssem fora em suas ridículas bicicletas dobráveis.
O caminho de volta para casa foi tranquilo e assim permaneceu até que, a somente três quilômetros para chegar, o motor tossiu. No começo pensei que tinha errado a marcha, mas aí o motor tossiu de novo. E aí ficou sem gasolina, ainda que eu olhasse para o painel onde o mostrador indicava que ainda havia um quarto de tanque. Era um fato. Estávamos no meio da note, no meio do nada e as gotas de chuva eram grandes como coelhos.
Assim o Vauxhall VXR8 Bathurst S não começou bem. Me deixou muito molhado, depois me deixou muito irritado e agora estava começando a me deixar bem divorciado. Como esse fanfarrão pode causar tudo isso?
Resumindo, é esse o resultado de uma guerra civil australiana. Em Oz todo mundo é simpatizante da Holden ou da Ford. Claro que existem advogados e contabilistas que dirão que estão acima dessa divisão absurda, mas quando pressionados, eles dirão: "Lógico que sou um GM desde que nasci e nunca deixaria um Ford entrar na minha garagem porque..." - e nesse momento eles começam a ficar ruborizados - "..eles são todos espalhafatosos e..." - nessa hora batem na mesa - "..eu odeio eles. Eu sacrificaria minha vida e a vida dos meus filhos pela Holden e mataria com um martelo qualquer um que discordar de mim."
Na corrida de Bathurst, de onde a Vauhxall tirou o nome dessa edição limitada, existem batalhas enre gangues de fãs da Ford e da GM. Uns tipos meio Hell's Angels, com motos e correntes. E a única vez que eles se uniram foi quando um cara chamado Jim Richards venceu a prova com um Nissan Skyline. Foi tão vaiado que quando subiu ao pódio, pegou o microfone e chamou todos de "um bando de bundões".
É daí que esse grande Vauxhall saiu. Um lugar bruto, onde não existem mulheres e até as aranhas ficam assustadas. É um carro construído para ser canhestro. Para enfiar a cara em qualquer lugar que a Ford esteja só para dar uma resposta. Foi projetado para manter aquelas correntes girando.
Apesar disso, ele não é realmente australiano. Ele é construído lá mas foi projetado por um escocês chamado Tom Walkinshaw. Como ele é meu vizinho, fico imaginando como pode um cara tão quieto e reservado criar algo tão grosseiro.
É fácil encontrar sua casa. Vire à esqueda na simpática casa de queijo de Alex James, passando pela adorável wisteria de David Cameron, direto até depois do gablete de Ben Kingsley, chegando aos muros de pedra que marcam a entrada da casa. Mas eu não quero passar por esses lugares (nem por essas pessoas) em um carro com listras e "DE53JOS" escrito atrás. Então eu fiquei em casa.
No outro dia fui convidado para almoçar na casa de um amigo. Como ele mora em uma longa estrada particular, achei que não haveria nada de mais em chegar lá em algo tão "Crocodilo Dundee". Mas sem motivo algum, a bateria estava descarregada e o carro não pegava. Então fui com uma Range Rover. Como qualquer um faria.
Qual ficou escuro e a nação estava dormindo, decidi descobrir com o que se parecia aquele carro. Em pouco tempo descobri que era como estar em 1978. Não havia refinamento algum. Quando você pisa no pedal de embreagem para mudar a marcha, dá para sentir e ouvir todo o mecanismo se movendo. Algo que eu não sentia desde que o Chevette HS chegou aqui.
Também há o volante, feito do plástico mais barato do mundo e exatamente cinco centímetros a mais que o diâmetro do anel externo de Saturno. Você não dirige esse carro. Você malha.
E, finalmente, há o barulho. Meu deus. Nunca houve um carro barulhento como este. Numca. É óbvio que esse V8 - também usado no Corvette - é uma coisa barulhenta, mas quando você acelera, você não ouve ele. O que você escuta é o supercharger. Não é como um sopro ou um assovio, como se espera. É como se alguém estivesse dando serragem a milhões de esquilos.
É um barulho ensurdecedor, em uma frequência muito alta. Depois de algum tempo você não aguenta mais e tira o pé. E ouve o som distante de uma artilharia e das fagulhas de combustível queimando que saem do escapamento. É o ruído mais glorioso do mundo.
Então você tem a fase onde os esquilos guincham e aí você tira o pé do acelerador, espera a rotação baixar para 1800, quando o som da batalha aparece.
Há algumas outras coisas boas também. É surpreendentemente fácil de dirigir, se levar em conta que é algo com 564hp. Você pisa, os esquilos morrem e você espera passar os próximos seis segundos em uma luta contra o timão de navio para manter o carro em linha reta.
Mas não é o que acontece. É só pisar e ir. Não é como estar preso em todos os tipos de controle. Tudo o que você tem é o controle de tração ligado ou desligado. E isso é tudo.
Claro que é um carro enorme. Tão grande que é comum que o tempo seja diferente para os que vão sentados à esquerda do carro. E as pessoas do banco de trás ainda estão na cama. Mas como resultado dessa vastidão há muito espaço interno e espaço para muitos relógios de vovô no bagageiro. Tem um rodar muito bom também.
Equipamentos? Sim, ele tem alguma coisa, não muito. E o pouco que havia, não funcionou.
Quer saber? Eu não ligo. Estou envergonhado por admitir que adorei esse carro. Sim, é vulgar e terrível, mas é quase ridiculamente empolgante e não há outro caro que ofereça todo esse espaço e toda essa potência por menos dinheiro.
Vá em frente, compre um BMW M3 em vez desse. Enquanto isso, eu vou até a Ray Winstone Appreciation Society. E vou às suas reuniões na Espanha no que somente pode ser descrito como uma verdadeira fera. Medonho, mas absolutamente adorável.
Vauxhall VXR8 Bathurst S
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2 comentários:
Muito interessante esse carro. É bem do tipo que eu gosto. Be,, só não gosto de ficar na rua sem combustível...
Eu sou fã dos Holden esportivos e dos Ford FPV autralianos também!!
Mas a qualidade não é grandes coisas pelo jeito.
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