O genial dois-tempos



Memórias sujas da infância afetaram minha percepção sobre os motores de dois tempos.

O único motor dois tempos que eu tive é um motor de popa Seagull que vive em algum lugar dos fundos da minha garagem desde que eu o retirei do barco inflável que ele um dia impulsionou.

Este é, sem dúvida, o motor mais simples da história. Muitas unidades foram produzidas e eles conduziram pequenos barcos de pesca por lugares como o porto de Brixham. Seu metálico “ring-bim-bim” faz parte das memórias sonoras dos feriados no litoral.

Mas, meu Deus, ele é um monstro imundo e produz mais sujeira que seu homônimo voador*. Movido a uma mistura gasolina-óleo em uma relação 10:1, ele solta mais óleo que o Amoco Cadiz. Como os peixes sobreviviam a ele, continua sendo um mistério.

O Seagull é uma das razões de eu ter sido tão cruel com os dois-tempos semanas atrás, quando disse que eram apropriados somente para cortadores de grama. Inevitavelmente recebi algumas críticas sobre isso e agora admito que fui um pouco precipitado.

Isso porque andei lendo Stealing Speed, de Mat Oxley, que conta detalhadamente o que a maioria dos entusiastas do motociclismo conhece superficilamente, explicando como um engenheiro da Alemanha Oriental chamado Walter Kaaden combinou os escassos recursos da fábrica de motos alemã MZ com seu fantástico conhecimento sobre a dinâmica do fluxo de gases e tornou o motor de dois tempos uma potência do motociclismo.

Quando o piloto Ernst Degner fugiu para a Alemanha Ocidental, levou junto a tecnologia e a vendeu aos japoneses. A partir daí o domínio do velho mundo nas duas rodas entrou em declínio e o sol nascente passou a brilhar no firmamento do motociclismo.

Não quero estragar a história, caso alguém esteja interessado, mas é uma leitura muito divertida. Há algumas descrições feitas pelos próprios pilotos sobre o Tourist Trophy, na Isle of Man, e estatísticas assustadoras sobre a mortalidade nos anos 50 e 60. Isso me fez pensar mais ainda sobre os dois-tempos.

Acho que ele foi como o dirigível. Algo que veio, falhou e foi embora. Seu legado nas ruas foi a cultura das motos de arruaceiros, que foram populares quando eu era um adolescente. Elas deixavam um nevoeiro azulado em cada rua da cidade e perturbavam a paz tão violentamente que seus roncos ainda ecoam nos antigos pontos de ônibus. Hoje, esse ronco é a assinatura das “cinquentinhas”.

Mas Oxley demonstra que o declínio dos motores dois-tempos foi tão político quanto tecnológico. E quando você pensa nisso, é surpreendente que nada tenha sido feito por um motor que, no final das contas, bate duas vezes mais que o seu motor pelo mesmo tostão. Sugar, apertar, bater e explodir é um meio trabalhoso de chegar à combustão. Um motor dois-tempos consegue fazer ao menos três dessas simultaneamente.

Qualquer um que tenha guiado uma stinkwheel* dos anos 70 saberá que há dois problemas fundamentais com o dois-tempos que conhecemos. O primeiro é a faixa de potência reduzida – algumas das primeiras motos de corrida davam a seus pilotos somente 400rpm para jogar, mais um monte de marchas.

A outra é a lubrificação, já que o óleo acaba misturado com a gasolina e é jogado fora imediatamente após seu uso. Como o dois-tempos tradicional reage à menor provocação, a maioria dos projetos era sobrelubrificada, o que significa que ele literalmente ia parar no nariz das pessoas.

O que nós temos agora e não tínhamos na época, é o controle eletrônico. Isso é capaz de dividir a injeção de combustível em um cilindro de diesel em sete fases distintas, então não há razão pela qual ele não conseguiria dosar precisamente a lubrificação de um ring-bim-bim.

Depois de uma largada queimada, o motor dois-tempos finalmente estaria pronto para libertar o pobre pistão do abuso que sofre nas mãos de Nikolaus Otto. O pistão do quatro-tempos é como o cara que vai ao pub e precisa voltar pra casa para pegar sua carteira antes de pedir um pint. O pistão do dois-tempos pega um a cada visita. Ele certamente é melhor.

Eu ainda acho que o motor de combustão interna tem sido condenado ultimamente, mas talvez seja essa a solução. Ele continua batendo, só que duas vezes mais do que estamos acostumados.

*apelido das motos com motores dois-tempos, populares entre os jovens ingleses nas décadas de 60 e 70.

4 comentários:

fusca disse...

Adoreu a interpretação do barulho do motor rsrsrs

Dionisio disse...

Vai legendar o teste da Ferrari FXX?

Leo disse...

Só o teste, não. na verdade eu pensei em legendar os episódios completos. Vou ver com o Felipe, que é o colaborador. Logo deve aparecer algo novo por aqui.

Luis disse...

Alguém poderia me passar o site original?

OBRIGADO!