O jovem Henry Surtees foi morto por uma roda que bateu em sua cabeça em uma corrida de Formula 2. Então somente seis dias depois, Felipe Massa sofre lesões terríveis quando uma peça da suspensão atinge sua cabeça e em seguida causa um acidente. Felipe pretende passa por uma recuperação completa e voltar à F1. Henry, filho do campeão mundial John Surtees, morreu na cena do seu acidente.
Eu estaria mentindo se dissesse que meu estômago não gelou quando soube de cada um desses incidentes. Estaria mentindo também se dissesse que eles não me fizeram pensar sobre a minha própria experiência de lesão na cabeça, apesar dos meus pensamentos serem muito mais sobre Felipe e a família Surtees e não sobre mim. A julgar pelas fotos tiradas após a batida de Felipe, com um único olho aberto olhando descontroladamente por sua viseira despedaçada, ficou claro que a mola da suspensão havia pousado à esquerda de sua fronte.
Machuquei a parte frontal do cérebro em meu acidente, em 2006, e como era triste pensar na longa jornada de recuperação desse tipo de lesão. A parte frontal do cérebro é o lugar responsável por nossas emoções, nossa personalidade. É onde vivemos, quem somos. E qualquer dano ali é potencialmente catastrófico e pode levar anos para curar. Sei disso por mim, três anos passaram e o processo ainda continua. Embora seja impossível imaginar quão feliz estaria a família Surtees se eles tivessem a oportunidade de ajudar Henry em uma jornada semelhante.
Parece que Felipe vai escapar de lesões no cérebro, seu capacete de fibra de carbono absorveu todo o impacto que poderia facilmente matá-lo. Mas cada vez que leio que ele pretende voltar à correr na F1 tão logo após seu acidente, devo admitir que meus ombros caem um pouco. Não é pela idéia de ele estar se arriscando novamente – isso é problema dele. É só a lembrança agitada do desespero de “voltar”, de trabalhar, de ser “normal” de novo. Se você já torceu um tornozelo enquanto corria na frente de todo mundo mas continuou, fingindo que estava tudo bem, você sabe do que estou falando.
Parece uma necessidade especialmente poderosa em vítimas de traumatismo craniano. Lembro de ficar tão desesperado para provar aos médicos que eu estava bem e poderia agir corretamente que citava fatos aleatórios que lembrava dos programas de TV durante o dia. Quando eu perguntavam que dia era ou onde eu estava, eu não tinha a menor idéia. Mas eu ainda queria mostrar que estava bem. Talvez a cura venha com a lenta percepção de que você machucou seu cérebro; você danificou o lugar onde você vive.
Seja o que for, eu vi o efeito disso quando visitei o Children’s Trust em Tadworth para abrir a unidade de reabilitação para crianças com lesões cerebrais adquiridas. É um lugar incrível, um lugar cheio de esperança mesmo para o mais grave dos casos enquanto eles realizam suas próprias jornadas de qualquer grau de recuperação que cada um deles será capaz.
Uma garota, internada desde que sofreu sua lesão, no começo do ano, me pegou para conversar do lado de fora. Ela anda mais curvada, ainda tem problemas com a balança – apesar de melhorar a cada dia – e me deu um olhar analítico. Ela me perguntou se era verdade que eu tive problemas com a minha ortografia por algum tempo após o acidente. Eu disse que sim, que eu tive. Ela perguntou se eu já estava melhor e eu disse que sim, estava. Ela chorou aliviada. Tudo o que ela queria era ouvir que é possível melhorar, se levantar da confusão e do medo e ser a pessoa que você era antes e sentir que você ainda é.
E é um tipo de lesão que sempre irá assombrar o automobilismo e os esportes motorizados. Da lesão de Sir Stirling Moss, no acidente de 1962 em Goodwood que encerrou sua gloriosa carreira, até as lesões de Felipe e Henry Surtees em julho e as milhares de lesões similares que acontecem nas rodovias a motociclistas e motoristas há uma vulnerabilidade particular aqui.
E, correndo o risco de ser chato e enfadonho, me desculpem se eu salientar que elas realmente, de verdade mesmo, servem como um aviso para cada um de nós, motociclistas, pilotos e mesmo ciclistas, que um capacete é mais que um requerimento legal, é necessário e um salva-vidas.
Para alguns, mesmo um capacete não pode impedir o pior de acontecer, e minhas condolências vão para sua família. Porém, para outros, como Felipe Massa, um bom capacete é a diferença entre correr fingindo que está tudo bem e não ter a chance de tentar correr de novo.
Richard Hammond sofreu um acidente a bordo do dragster Vampire a 463km/h. Hammond ficou por três meses em coma mas não sofreu lesões permanentes.
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